18 de outubro de 2016

Os solitários homens dos dóris



Citando uma crónica de Manuel Luís Pata, publicada no jornal O Figueirense, em 2.11.2007:
"A pesca do bacalhau foi a indústria que mais contribuiu para o desenvolvimento da Figueira da Foz. Nas campanhas de 1913/14 foi este o porto que mais navios enviou à Terra Nova (15 navios), ou seja, quase metade de toda a frota nacional. Hoje o que resta? Nada de nada! Infelizmente, foi necessário os ilhavenses virem-nos lembrar que a Figueira também foi terra de “heróicos lobos do mar”. Estive presente no evento porque o sr. presidente da Câmara teve a gentileza de me convidar. Eu já tinha visto a exposição aquando da sua apresentação no Museu Marítimo de Ílhavo, por convite do presidente da Câmara eng. Ribau Esteves. Devo lembrar que a única exposição levada a efeito sobre a pesca do bacalhau na Figueira da Foz foi em 1997 aquando da apresentação do meu trabalho policopiado “A Figueira da Foz e o Pescado do Bacalhau” (publicado depois como volume I, com o mesmo título). A referida exposição foi organizada pela dra. Gracília do Carmo, à qual dei a minha colaboração e devo informar que a maior parte do material foi cedido pelo sr. Alexis Passechnikoff, do Porto (meu amigo) e pelo Museu Marítimo de Ílhavo. Foi a própria dra. Gracília que foi no seu carro ao Porto e a Ílhavo buscar o material. O restante foi conseguido aqui na Figueira, foi transportado no meu carro e o material mais volumoso e pesado, incluindo algumas estantes e um dóri do bacalhau (cedido pelo eng. Carlos Cação) foi transportado pelos militares por gentileza do comandante do quartel. Esta exposição e outras então realizadas foram efectuadas a custo zero para a Câmara Municipal. Não houve qualquer apoio de quem superentendia os serviços de Cultura. Houve, sim, dificuldades. A dra. Isabel, à data, directora do Museu, não autorizou que fosse colocado no hall, junto ao painel (parietal) do navio José Alberto, o referido dóri, que tinha tomado parte nas campanhas deste navio. Durante a exposição de fotografias do CAE, acima referido, o vereador Lídio Lopes informou que depois de concluída a intervenção no prolongamento do molhe norte será aí construído um monumento de homenagem aos homens que em dóris pescaram à linha o bacalhau, nos mares da Terra Nova e Gronelândia. Isto porque “a Figueira reconhece o trabalho e o empenho dos seus filhos”. Embora já tarde, acho muito bem que a Figueira acorde para a realidade... Porém, entendo que o lugar escolhido não será uma homenagem mas sim a falta de bom senso!... E porquê? Porque essa obra (acrescento do molhe) será uma obra criminosa pelas razões já várias vezes por mim referidas, não só publicadas em vários jornais, como em exposições feitas aos governantes, incluindo o sr. Presidente da República. Porém, já a minha avozinha dizia: “quem se mata morre cedo”... O acrescento ao molhe norte será uma obra sem qualquer estudo racional!... Será que a “sepultura” da ex-Praia da Claridade, a erosão das praias a sul e as necessárias e constantes dragagens passam despercebidas, ou será que preservar a mina das areias está acima do interesse nacional? Considero que o acrescento do molhe norte será uma obra criminosa,  porém, como apregoam que vivemos em democracia, sinto-me com o direito de proibir que o meu nome e dos meus familiares falecidos sejam colocados em tal local aberrante!... O lugar certo seria no José Cação, navio que o dr. António Cação ofereceu à Câmara Municipal e não foi aceite tão preciosa oferta. Que belo seria podermos ver hoje o navio José Cação aqui instalado numa abertura feita na Morraceira, junto à Ponte dos Arcos. Ílhavo tem um belo museu, o navio Santo André e tem o casco do Santa Maria Manuela, o qual pensam aparelhar para pôr a navegar. E o que tem a Figueira que honre os seus filhos?"

1 comentário:

  1. Vi pela 2ª vez. Este é o verdadeiro povo de Portugal: lindo, fabuloso e heróico!...

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