21 de novembro de 2016

O batel do Mondego

Os registos históricos do Museu Municipal da Figueira da Foz, elaborados pelo estudioso Arquitecto Octávio Lixa Figueiras, datados de 1980, referenciam o batel de sal, embarcação tradicional do rio Mondego, como um "importante subgrupo de embarcações fluviais", responsável pelo transporte de areia e de sal. O batel apresenta "a cobertura da proa, com antepara e porta. À popa, a antepara da ré limita uma pequena câmara, do assento até à roda. Arma uma vela de pendão ao terço, mais larga que alta, e também é impulsionado à vara. O leme é de cana de encaixar na cachola".

Tripulados por dois homens, os barcos do sal cruzavam todo o salgado aproveitando sabiamente os ventos e as marés (quando estes eram adversos era muitas vezes o barco puxado à sirga puxado por uma corda a partir da margem), deslizando então penosamente em direcção ao seu porto de destino, normalmente os Armazéns de Lavos ou o cais do Trapiche, locais que funcionavam como grandes entrepostos de sal da Figueira da Foz.

Os passeios fluviais constituíram sempre uma ocupação acessória dos batéis do sal. 
Ramalho Ortigão celebrizou-os em “As Farpas", caricaturando a intensa rivalidade politica existente na Figueira da Foz do final do século XIX, através da descrição de um passeio a Lares, a bordo de um batel de campanha regeneradora, que transportava uma filarmónica progressista.
Entre os finais dos anos 80 do século passado e o ano 1 do nosso século, o barco do sal esteve ausente das águas do nosso rio.
Há cerca de 16 anos, mais precisamente a 5 de Agosto de 2001, um batel de sal voltou a navegar no Mondego.
Tal acontecimento, ficou a dever-se à parceria “Sal do Mondego”, que foi a entidade responsável pela construção duma réplica de um barco de sal.
Faziam parte desta parceria as seguintes Instituições: Assembleia Figueirense, Associação Comercial e Industrial, Ginásio Clube Figueirense, Misericórdia da Figueira e as Juntas de Freguesia de São Julião, Alqueidão, Vila Verde, São Pedro, Lavos e Maiorca.

A viagem inaugural deste barco, foi uma iniciativa da Empresa Vidreira do Mondego, que organizou um passeio fluvial à Festa da Nossa Senhora da Saúde, em Reveles, uma festa, aliás, que diz muito a diversas gerações de homens do mar da Freguesia de S. Pedro.
Nesse já longínquo primeiro domingo de Agosto de 2001, a parceria gestora e proprietária do batel viu mais uma entidade aderir à iniciativa: a Associação Humanitária dos Bombeiros Voluntários.
Nestes cerca de 16 anos de vida, nem a parceria gestora do projecto, nem o “Sal do Mondego” têm tido vida fácil.

O que se passa afinal? O que está a encalhar o projecto?
Vai deixar-se apodrecer, ingloriamente,  a derradeira possibilidade de ver sulcar nas águas do Mondego o último exemplar do “barco do sal”?
Será que teremos de recorrer às fotografias antigas para poder ter a emoção de ver um batel?

Todos os rios do nosso País têm barcos tradicionais a navegar.
O Mondego e a Figueira da Foz virão a ser a excepção?
Está mais que na hora de ver a vela latina do "Sal do Mondego" desfraldada ao vento.

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