18 de dezembro de 2016

As Citroen da Gulbenkian

Alguma da liberdade que conquistamos ao longo da vida, tem a ver, ou foi adquirida, nos livros que fomos lendo. Com alguma regularidade, refugiu-me em páginas, onde o pensamento ou a realidade descrita, transbordam o meu quotidiano.
E, quão importante pode ser um livro, quando, no fundamental, como tem acontecido comigo nos últimos anos, contamos sobretudo connosco próprios!

Nascido numa casa com muito poucos livros, mas onde o gosto pela leitura era cultivado, a minha dívida perante as carrinhas da Fundação Gulbenkian é enorme.
As carrinhas, que paravam na Gala, no Largo das Alminhas, e na Cova, frente ao clube Mocidade Covense, traziam dois Homens que muito contribuíram para incentivar o gosto pela leitura de gerações de covagalenses.
Os seus nomes: António Dias Lopes Curto e Joaquim Oliveira Medina.

Este serviço, estritamente popular e sem fins lucrativos, era assegurado pela Fundação Gulbenkian em quase todo o Portugal continental, Açores e Madeira. Durou entre 1958 e meados da década de 90 e atingia níveis de leitura bastante elevados, em termos estatísticos de utilizadores atendidos e inscritos, com milhões de livros emprestados todos os anos.

A Gala e a Cova, agora, não ficam longe da Figueira. Há razoáveis transportes públicos e, muita gente, possui transporte particular, o que torna uma brincadeira uma ida à cidade.
Mas, no Portugal dos anos 60 e 70, as coisas eram substancialmente diferentes, e a chegada da Citroen da Fundação Gulbenkian, com as estantes carregadas de livros, era praticamente a nossa única oportunidade de aceder ao conhecimento.
Portugal, vivia, então, num regime autoritarista, fechado sobre si mesmo e castrador, onde a cultura não era propriamente uma prioridade do salazarismo.
Nas pequenas Terras, como a Cova e Gala, quando chegava a carrinha biblioteca da Gulbenkian, porém, abria-se uma janela para o conhecimento! ....
Como seria Portugal, em finais de 2016, se não existisse a Fundação Gulbenkian?
Confesso que não sei.
Sei, isso sim, como foram importantes para a minha geração as carrinhas Citroen da Gulbenkian! ...
Obrigado!

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