4 de dezembro de 2016

Ser covagalense, na Cova e Gala do século XXI...

Na actualidade, a maioria dos habitantes da Cova e Gala não é covagalense. 
Acredito que gostem da Aldeia, que gostem de cá viver, que a considerem também sua, mas não têm cá as raízes: têm as raízes noutros lados, que alguns continuam a cultivar.
Para muitos, a Cova e Gala é uma Aldeia dormitório, de passagem e acolhimento.
O covagalense, enquanto tal, não tendo de ser necessariamente um «puro-sangue», como eu, terá no mínimo que ter nascido na Aldeia e já não possuir uma «aldeia» dos seus ascendentes onde goste de ir passar fins de semana.
A um covagalense, um dia mais nostálgico, empurra-o para a orla costeira, onde o olhar se estende por um mundo imenso, oceano adentro. 

Como é visível, na Aldeia cada vez sobra menos gente a quem chamar covagalense. 
Contudo, esse relativamente reduzido número de pessoas tem um traço marcado: ama a sua Aldeia, os seus lugares e as suas ruas com sensibilidade e a profundidade intensa dos artistas e poetas...
A origem geográfica de cada um de nós que moramos na Cova e Gala é relevante: filho, neto e bisneto de marítimos cujas raízes estão em Ílhavo, também eu já fui  nascido e criado na Cova e Gala, «a minha Aldeia»
O meu avô paterno, foi pescador na faina maior. O meu avô materno, além de pescador, foi soldado na I Guerra Mundial.
Um e outro morreram novos. Aliás, na minha família, os homens quase todos morreram novos. Foi, também, o caso do meu pai.
Frequentei a escola primária na Gala e continuo a sentir algo especial, assim como que um  odor inconfundível, que respiro com deleite, sempre que lá passo.
Ainda recordo as histórias da minha avó Rosa Maia, que ficou precocemente viúva, num tempo muito duro e difícil, para quem como ela, ficou sem homem muito cedo, com filhos e pais a seu cargo e ao seu cuidado. Até ao fim da vida, morreu a um mês de completar cem anos de vida, foi uma "mulher de armas".

A Aldeia continua a correr-me nas veias.
Um covagalense, olha para a sua Aldeia com sobriedade, não embarca em modas. No fundo, o covagalense é, filosoficamente, um aldeão, descendente de marítimos explorados e arruinados pela dureza das suas vidas, um aldeão desenganado, um anarquista desiludido com a cidade, mas acalentando sempre orgulho na sua ascendência. 
Desconfia do espalhafato e do grande aparato. Distingue-se pelo entusiasmo reservado, pelo andar mais lento e por um sorriso triste. Um covagalense não se distingue pela cor dos olhos ou da pele. Distingue-se pela fala: pelo que diz e pela alma com que o diz. Isso, está-lhe no sangue.

Um covagalense nasceu e cresceu numa Aldeia impregnada de história, calcorreia-a  todos os dias através das ruas e avenidas novas e becos antigos, passeios sujos de merda dos cães, casa velhas e andares novos.
O covagalense não aceita o relativismo do momento, a estreiteza da modernidade e das suas disputas tantas vezes risíveis.
A Aldeia tem uma alma extraordinária e uma luz que é mágica. Aqueles que chegam e nela se instalam, são o sangue novo, entusiasmo e muita ilusão, com que a Aldeia se reconstrói e muda diariamente. 

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